Foto: Divulgação
Autor investiga a ligação e as mudanças na indústria musical
O sertanejo universitário dominou rádios, plataformas digitais e palcos em todo o país. Agora, em meio a sinais de desgaste e transformação, uma pergunta ganha força: o que explica esse fenômeno, e para onde ele caminha?
Em entrevista ao Portal Festanejo, o sociólogo Caique Carvalho traça um paralelo consistente entre a música e o agronegócio, com uma análise profunda e esclarecedora sobre como esses universos se conectam e se influenciam.
A conversa amplia o olhar sobre a origem do gênero, o sucesso entre os jovens, os desafios do mercado e os possíveis rumos da música sertaneja.
Mais do que um retrato do estilo, a leitura revela pistas importantes sobre as transformações culturais e econômicas do Brasil contemporâneo.
Leia a entrevista e entenda como o sertanejo ajuda a explicar as transformações do Brasil contemporâneo.
1- Como surgiu a ideia desta pesquisa?
Esse livro tem sua origem em uma pesquisa de mestrado que desenvolvi no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia. A princípio, eu buscava entender como os sertanejos universitários conjecturavam uma ideia de modernidade por meio das canções, promovendo, ao fim, uma remodelação da representação do rural brasileiro. No entanto, não demorou muito até que minha atenção se voltasse, cada vez mais, para o entendimento de como essa vertente sertaneja se relacionava com o processo de modernização conservadora do país, sendo, ao mesmo tempo, produto e produtora de uma nova configuração estética, social e econômica.
O livro, em si, foi desenvolvido em um momento posterior à dissertação. Nele, eu busco focar exatamente na relação entre a vertente universitária e, por um lado, esse último momento da modernização brasileira, que resulta, no final do século XX, no agronegócio, e, por outro lado, nas transformações da indústria cultural no Brasil do século XXI.
É, ao fim, uma busca pelo entendimento desses três elementos que dão nome ao título, mas que vão além, pois acredito que a pesquisa não apenas buscou compreendê-los, como também fornece bases para entender dilemas econômicos, sociais e políticos estruturais do país.
2- A expressão “sertanejo universitário” veio com a ideia de conquistar jovens para esse estilo de música. Como conseguiram esse sucesso?
Eu não diria que a expressão “sertanejo universitário” se desenvolveu com esse objetivo. Com isso, não quero negar que a terminologia tenha funcionado no sentido de atrair o público consumidor mais jovem do país. Desconfio, contudo, de que essa nomeação tenha se originado com esse grau de intencionalidade, e há elementos factuais que permitem avançar um pouco mais na interpretação do termo “universitário”.
Essa vertente é originária de uma primeira geração de artistas sertanejos inseridos no ensino superior; além disso, o público inicial era majoritariamente universitário. Trata-se, portanto, de uma vertente que surge no contexto de expansão do ensino superior no país e vinculada — há aqui um ponto relevante a que devemos nos atentar — majoritariamente às esferas produtivas do agronegócio.
Se há um movimento intencional e publicitário na construção da terminologia “universitário” em torno da vertente, como considero que exista, há também influências coerentes com o contexto no qual ela surge.
Agora, é claro, isso não muda o fato de a vertente, assim como o termo, funcionar como meio de atração, vinculação ou mesmo identificação entre o público mais jovem e a música sertaneja.
3- Neste 2026, o “sertanejo universitário” chega com algum desgaste. Acha que é por conta de um processo natural?
Natural, no sentido de “corriqueiro”. É comum o esgotamento de um movimento artístico em dado momento, sobretudo diante da ampliação da lógica mercantil sobre os bens artísticos. Isso ocorre porque é necessário vender sempre e de forma contínua; afinal, trata-se, no fundo, da lógica de acúmulo de capital, o que implica um processo veloz e agudo de reposição e superação de obras existentes.
Porém, para além da lógica capitalista subjacente à indústria cultural, o desgaste do “universitário” me parece ter relação com outras duas determinações. Por um lado, o esgotamento do movimento socioeconômico que lhe dá material de elaboração estética — a alta das commodities, o acesso ao crédito e o consumo. Por outro lado, a conjunção de um novo momento da música sertaneja, que lhe permite transformar-se em uma espécie de “pop brasileiro”, cuja identidade singularizada se mantém em uma postura equilibrista de absorção de movimentos, gêneros e hits que surgem ao longo do território nacional e, em alguns casos, internacional.
4- Pensando em mercado da música, acha que o momento é de reciclagem para um novo tipo de apelo musical na área?
O momento é de ampliação da desigualdade. Se houve um período em que se acreditou que as redes sociais promoveriam uma democratização musical, tal crença caiu por terra. É evidente que, do ponto de vista da produção, ocorreu uma facilitação — e os “universitários” surgem nesse processo de barateamento da gravação de música e, também, de sua circulação, por meio da pirataria e da internet —, mas, majoritariamente, observa-se uma concentração, sobretudo na esfera da circulação.
As empresas responsáveis pela circulação de música atualmente — plataformas como Spotify e Deezer — repassam muito pouco aos artistas, que precisam, mais do que nunca, do show presencial para sua manutenção financeira.
Surge, assim, um ciclo desigual, no qual os streamings e, sobretudo, um bom posicionamento neles são necessários para dar visibilidade ao artista e viabilizar a venda de eventos musicais, dos quais ele se sustenta.
No âmbito do rádio, esse processo não é distinto. Embora exista um controle maior de setores nacionais sobre as empresas radiofônicas, a prática do jabá é muito recorrente, o que impede, em grande medida, o surgimento de algo verdadeiramente novo e autônomo. Ao fim, estamos novamente discutindo elementos relativos ao que Adorno conceituou como Indústria Cultural.
A partir desses elementos (que poderíamos desenvolver mais, mas acredito ser válido encerrar aqui), podemos concluir que, embora possa existir uma demanda por novas expressões, esse ímpeto pelo “novo” e pela “criatividade” é reiteradamente capturado por essa estrutura de produção e circulação que, na prática, limita grande parte da criatividade humana, ao mesmo tempo que satisfaz, em nível imediato, essa demanda por aquilo que podemos chamar de “reciclagem musical”.
5- A música sertaneja tem raízes na música caipira, mas hoje em dia as duas vertentes se descolaram. Acha que há uma diferença grande entre as duas vertentes?
Há diferenças estéticas no que se chama de música sertaneja e música caipira. Contudo, a meu ver, a música caipira é uma vertente da música sertaneja que se metamorfoseou e se transformou, como acontece com a maior parte dos gêneros. No rock, por exemplo, podemos identificar o rock progressivo, o heavy metal, o thrash metal ou mesmo o indie rock. No samba, há o samba de roda, o samba chula, o partido alto e o pagode. Na música sertaneja, por sua vez, existem a música caipira, o universitário, o romântico…
Vejo a música sertaneja com mais similaridades do que diferenças, ao contrário do que alguns artistas e mesmo críticos buscam pontuar. É evidente que isso não obscurece diferenças significativas, afinal, são vertentes e gêneros que têm suas construções estéticas em contextos muito particulares; portanto, apresentam conteúdos e formas distintos. Ainda assim, há uma similaridade que considero bastante precisa: ambos representam o moderno e o campo, ainda que de maneiras distintas. A música sertaneja é, nesse sentido, um desenvolvimento consequente da música caipira.
6- Em relação às entrevistas para sua pesquisa, quem você procurou para dar depoimentos?
Realizei algumas poucas entrevistas no início da pesquisa com pesquisadores do campo musical; contudo, não como fonte de dados, mas no que chamamos de entrevistas exploratórias. Nesse sentido, não trabalhei diretamente com métodos de entrevista comumente utilizados nas ciências sociais, como a entrevista semiestruturada, por exemplo.
As entrevistas que utilizei como fonte de análise foram produzidas majoritariamente fora do âmbito acadêmico — as utilizei como dados secundários. A partir delas, busquei produzir uma análise do discurso expresso por esses agentes. Além disso, trabalhei com a análise de notícias de jornais, o levantamento quantitativo de apresentações musicais em eventos agropecuários, o levantamento de dados da discografia de alguns artistas, revisões bibliográficas de caráter historiográfico, sociológico e econômico, bem como a análise do conteúdo das canções.
7- Essa ligação com o agronegócio enviesou para a área da atual briga política no país. Sertanejo virou sinônimo de “direita” contra a “esquerda”. Analisou esta faceta?
Há duas análises muito recorrentes que considero pobres. Algumas críticas produzem uma interpretação que explica o posicionamento à direita de artistas sertanejos como uma reação à classe média e à MPB, que estaria mais à esquerda e que teria historicamente marginalizado o gênero. Outra interpretação constrói uma síntese essencializadora, que atribui aos sertanejos um conservadorismo crônico, expresso em suas perspectivas.
Historicamente, essas noções não se sustentam, sobretudo porque há exemplos de artistas sertanejos à direita e à esquerda ao longo de quase 100 anos desse gênero.
A vinculação com o agronegócio me parece um fator relevante, pois, além de o gênero se originar em um espaço geográfico e social dominado por esse setor produtivo, demonstro, em meu livro, como não apenas o sertanejo universitário, mas a música sertaneja em geral, conquistou para si um espaço privilegiado de circulação — especialmente em eventos agropecuários —, o que explica parte de seu sucesso e sua capacidade de difusão de shows pelos interiores do Brasil. Há, portanto, uma vinculação muito própria entre esses dois fenômenos.
De modo que acredito que o aspecto mais preocupante desse processo resida não na exaltação de artistas explicitamente vinculados a setores da direita, como Gusttavo Lima, por exemplo, mas na coação implícita — e, em alguns casos, explícita — que incide sobre os artistas do ramo, produzindo um processo de censura e autocensura, motivado pelo receio de represálias e de obstáculos em suas respectivas carreiras.
8- O que acha que será da música sertaneja neste futuro próximo?
Quando falo de um “pop brasileiro”, estou olhando para o destino da música no centro capitalista estadunidense, que exerce uma hegemonia mundial nesse campo. Lá, a música pop, inicialmente vinculada à ideia de música popular, metamorfoseou-se em um gênero curioso: um “gênero-esponja”, no qual convergem artistas muito criativos, mas sobre o qual também se exerce, com muita força, a indústria da música.
É absolutamente comum que as elaborações musicais bebam de fontes diversas — o inventário de uma música é um conjunto de elementos que desafiam o espaço e o tempo. No entanto, parece-me que o sertanejo hoje conseguiu se constituir, muito mais do que a MPB, como um “pop” que absorve o hit e o sucesso, mantendo uma aparência de singularidade por meio de elementos estéticos, como o formato em dupla e o uso do acordeão, e performáticos, como o vestuário agro-urbano. Soma-se a isso, é claro, o controle material exercido por escritórios e agentes vinculados ao meio sertanejo — agropecuaristas, entre outros —, o que lhes garante reconhecimento como algo “sertanejo”, ao mesmo tempo em que migram freneticamente para formas e conteúdos que fazem sucesso.
Dessa dinâmica emerge uma contradição: a própria “identidade”, que busca sintetizar algo de singular — no caso, o sertanejo —, passa a se referir ao que é múltiplo, sem ser necessariamente diverso.
Isso garante uma sobrevida e uma capacidade de fôlego comercial e estético muito amplas. Não significa perenidade, mas indica uma forte capacidade de remodelação diante de diferentes circunstâncias e contextos.



